sábado, 29 de abril de 2017

Girls - Um último episódio muito pouco convencional

     Lena Dunham, a criadora, argumentista e protagonista da série da HBO, "Girls", já há muito nos habituou ao seu modo de fazer as coisas sem ligar muito, ou até mesmo, desafiando as convenções. Quem acompanhou a série ao longos destes últimos seis anos, ou quem tenha visto filmes como "Tiny Furniture", ou até lido a sua autobiografia "Not That Kind Of Girl", sabe que esta talentosa e criativa norte-americana, para além de muito pêlo na venta, tem uma visão multi-dimensional e desinibida da vida, da arte e da maneira de contar estórias. 
    Na série que acompanha a jornada de crescimento e descoberta de quatro raparigas (e mais alguns rapazes) na casa dos vinte em Nova Iorque, e que chegou ao fim este mês de Abril, a autora construiu um caos organizado à volta de cada personagem, que nos levou até a acreditar, a um certo ponto, que estas mesmas estavam a desenvolver-se e a adquirir uma determinada direcção nas suas vidas. Mas Lena é uma promíscua amante da realidade. 
    Durante seis anos, vimos várias personagens a crescer e decrescer, a atingir objectivos e a deitar tudo por terra. Difícil não nos espelharmos em algumas situações. Afinal, a vida tal como ela é, não tem um final feliz. Pode haver uma dia em que fica tudo bem, mas logo vem o dia em que as coisas deixam de estar bem outra vez e tudo se transforma numa constante luta e superação de desafios. Convenhamos, seria aborrecido de outro jeito. E a vida é assim, bonita, tal como ela é. Com todos os seus defeitos e a nossa dificuldade em encará-la, como a nudez de Lena no ecrã. 


Aviso: Os seguintes parágrafos contêm spoilers.

    Mas falando estão da series finale. A última temporada teve como grande centro da trama, a gravidez da personagem Hannah. Não me surpreendeu nada que Lena Dunham quisesse acabar a série com a temática da maternidade. Momento cusquice: Quem sabe um pouco sobre a vida real desta feminista acérrima, sabe que o seu maior sonho é ser mãe, e que até tem enfrentado alguns problemas de saúde que podem afectar a sua fertilidade. Mas a personagem que encarna não tem o mesmo inconveniente e acabou até por ter uma gravidez não planeada. 
    E é assim que vemos Hannah, a personagem que parecia que nunca ia endireitar, assumir aquela que é talvez a maior das responsabilidades que um ser humano pode ter, e aceitar o que a vida lhe tinha trazido. A personagem mais caótica da série, foi nesta última temporada, a mais serena. Se é possível que tenha mesmo crescido como personagem, acredito que sim, mesmo que no último episódio ainda a tenhamos visto a andar em cuecas no meio da rua. Lena Dunham não queria deixar de nos dar uma última cena à la Hannah
    Outra personagem em que também já tínhamos perdido a fé, era em Marnie, uma controladora que não conseguia tomar as rédeas da sua vida. Mas a atitude de protecção que ela tomou em relação a Hannah e ao seu afilhado, embora como uma forma de fugir da sua própria vida, foi sem dúvida a atitude mais madura e altruísta que teve durante toda a série. Apesar de egocêntrica, como Hannah, Marnie sempre quis apenas que estivesse tudo bem. 
    Jessa acabou como começou, talvez um pouco mais madura também.  E o mesmo aconteceu com Shoshanna, que sempre teve um sentido prático muito apurado, mostrando-o bem na sua última cena. Porém, o final destas personagens foi muito pouco desenvolvido. Propositadamente. O objectivo foi não dar um final às personagens, mas deixar tudo em aberto. Muitas mais lutas estarão para vir.
    No último episódio, apenas Hannah e Marnie aparecem. O “final” como grupo acontece no penúltimo episódio. E é por isso que muitos dizem que o penúltimo espisódio é na verdade o último, e eu concordo, e digo mais, o último episódio é, na verdade, um epílogo. O que não costuma acontecer nas séries. Mais uma vez, Lena Dunham a trocar-nos as voltas.
    Como grupo de amigos, as coisas acabam de uma forma bem real. Cada um segue o seu caminho. Há um elemento que corta inteiramente a ligação, outro que se vai desligando naturalmente, outro que fica sempre mais próximo, e outro que se muda de cidade. Mas o grupo, em si, deixa de existir. Deixa de fazer sentido. Não quer dizer que aquelas pessoas percam a importância que tiveram e terão na vida umas das outras (como nos mostra a nostalgia daquela última cena), mas seguem agora caminhos bem diferentes. Tornaram-se finalmente adultas.
    Foi uma bela, divertida e desafiante caminhada, Lena Dunham, muito obrigada.

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