quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O livro de receitas machista

Existe na casa dos meus pais uma relíquia da tradição culinário-literária portuguesa que sai da gaveta sempre em alturas de festa. É pois um livro de receitas bem portuguesas que a minha mãe tem já há largos anos, e que deduzo que possa existir em muitas mais casas por este país fora.
Em alturas de festividades como é a do Natal, lá vamos buscar ou relembrar receitas pois que aquilo tem tudo, desde sopas a pudins. Mas bem, o catano do livro, sempre que é usado, torna-se todo um espectáculo de comédia lá em casa. Querem saber porquê?

Ora, em primeiro lugar, atentem no título:


É isso mesmo. "A mulher na sala e na cozinha", um livro que pretende ensinar as donas de casa não só a cozinhar belas refeições para o marido e para os filhos mas também ensinar-lhes sobre "etiqueta". Um livro feito para ser passado de mãe para filha e assim em diante.
Este, acima, é o livro que a minha mãe tem, cuja edição (a 17ª) é de 1983. O livro é bem mais antigo, mas embora ninguém saiba precisar a data da primeira edição, encontrei algures na net, alguém que tem uma 8ª edição que data de 1965, o que me leva a crer que o livro é dos anos 50. Parecer, parece! Encontrei sim fotos das capas de edições mais antigas do livro:



Que fofinho... Ora podem já ver que é um livro escrito por uma mulher. Até aqui tudo bem. É compreensível para uma época em que só as mulheres tratavam das lides da casa. A autora é uma tal de Laura Santos, de quem nunca ouvi falar, e sobre quem também não se encontra nada na net. Apesar de ter escrito um "clássico", ficou no anonimato. Esta mulher que para além de cozinha e etiqueta, parece ter sido dada à intervenção e tinha uma opinião muito vincada sobre o papel da mulher.
Pois é. Há algo neste livro que é o que acaba por ser o mais fascinante sobre ele, e denuncia de caras a época em que foi escrito: o prefácio! Só há alguns anos nos deu para reparar no prefácio, escrito pela autora, e lê-lo de uma ponta à outra.

Atentem:




Foi uma fartura de gargalhadas e chacota. Mas que também me levou a reflectir... que sortuda sou por viver nesta época, por reagir assim, com esta incredulidade, por rir daquelas palavras com os meus dois irmãos (homens) que cozinham e passam a ferro.
E sempre que abrimos este livro é como uma porta para outra dimensão, de uma geração a olhar para a outra, com ideais tão diferentes, mas com as mesmas comidinhas, essas sim, continuam a ser as que mais gostamos (ó que o livro tem receitas deliciosas, lá isso tem). E sim, vou guardá-lo para a posterioridade.

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