sábado, 5 de março de 2016

Hoje é um dia triste

Às vezes o desaparecimento de lugares deixa-nos tão tristes como o desaparecimento de alguém. Talvez porque esses lugares nos façam lembrar pessoas que não estão mais nas nossas vidas mas que já foram tão importantes, ou nos façam lembrar de nós próprios, de quem fomos, do que fazíamos, dos bons momentos que vivemos. Da nossa juventude.

Aquela que era a antiga e mítica sala de cinema da minha cidade ardeu durante esta madrugada. O edifício já estava devoluto há alguns anos, mas a sala continuava lá intacta, e claro, há sempre uma esperança de ali poder voltar a entrar um dia. Mas as chamas destruíram o nosso grandioso Cine-Teatro. Para a cidade, e para as gerações mais velhas, do qual a minha será a última a ter frequentado aquele espaço, é um grande perda pessoal.

Era a nossa grande sala de cinema, onde íamos ver, por trezentos escudos, os tão aguardados filmes e os idolatrados actores, numa altura em que ainda não tínhamos Internet em casa, muito menos pirataria. Era a sala enorme onde no Inverno se apanhava um frio que gelava, mas nós íamos na mesma, e se fosse a ver um filme de terror, até parecia que aquele frio cortante era parte da experiência, assim como quando falharam os projectores a meio d'O Exorcista.
Era onde eu e o meu grupo de amigos passávamos as tardes em que não havia escola, onde às vezes até os professores se juntavam a nós. E foi talvez o primeiro lugar onde nos sentimos crescidos, naquelas vezes em que os nossos pais nos deixaram ir à noite.

O lugar de intermináveis conversas e risinhos antes dos (e algumas vezes durante os) filmes, de gargalhadas, de lágrimas, de sustos, de sonhos. O lugar que me viu chorar, com os meus seis aninhos, a morte do Mufasa no Rei Leão. O meu primeiro cinema.

As pessoas que perdemos continuam sempre vivas nas nossas memórias, e os lugares que perdemos, a esses também podemos voltar sempre que quisermos.

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