segunda-feira, 30 de junho de 2014

A ansiedade e as suas singularidades

Foi no sábado que, pela primeira vez em quase quatro meses, voltei a andar de metro. E correu bem.

Eu explico. Isto remonta a inícios de Fevereiro quando eu comecei a ter ataques de pânico. Apesar de me ter acontecido noutros locais como o autocarro ou no trabalho, foi no metro que tive o primeiro e o maior. E foi sempre no metro que tive os ataques mais intensos. Sei bem que nunca esteve relacionado com nenhuma fobia. Nunca tive problemas em andar de metro, e antes preferia sempre o metro ao autocarro, por ser mais rápido, e apesar de viver a uma curta distância de autocarro para o trabalho, optava sempre pelo underground. O que provocou os meus ataques de pânico foi sim, a ansiedade que até aí, eu desconhecia por completo que tinha. Pode não fazer sentido, mas qualquer pessoa ansiosa sabe como os ataques surgem quando estamos parados, quando temos de esperar, quando nos sentimos "paralisados". E a razão pela qual me aconteceu mais vezes no metro, é talvez por ser um espaço mais pequeno e no qual o meu inconsciente reconhece que não há por onde fugir se acontecer alguma coisa má e põe o meu corpo em alerta. Porque é isso um ataque de pânico, é o corpo a tentar defender-se de um perigo que não existe, soltando a adrenalina no sangue e pondo os sentidos em alerta. E é por isso que o coração dispara, que a respiração se torna curta e ofegante, que parece que ouvimos tudo mais alto, que vemos tudo mais claro e temos aquela sensação que vamos ficar malucos e desatar a gritar e subir às paredes. Não tenho melhor maneira de explicar a sensação. Ah, quando se tem um ataque de pânico pela primeira vez, sem se saber o que é, a sensação é de que vamos morrer. E por isso nunca se esquece o primeiro... E pelos vistos, há uma clara tendência em voltar a ter ataques de pânico sempre que uma pessoa passe pelo local onde teve o primeiro. É o corpo a defender-se de um perigo que reconhece. O meu querido hotspot é Lambeth North Station na Bakerloo Line.
Na altura fui ao médico, fiz um electrocardiograma e análises ao sangue, e tudo estava OK. Os batimentos acelarados do coração não tinham qualquer origem física mas psicológica. Tive que deixar de tomar café (snif), tal foi a sensibilidade que o meu corpo ganhou à cafeína, naquilo que parece que foi de um dia para o outro. A sério, até o chá preto, o chocolate preto ou a canela (que não é cafeína mas também é um excitante) me afectavam. Mas na realidade a cafeína também me deveria estar a afectar há algum tempo. Eu que sempre fui daquelas pessoas que não sabia como outras sobreviviam sem tomar café. Agora sei. And we do just fine.
Na altura também me ajudou falar com colegas de trabalho que tinham passado pela mesma "fase" e a primeira coisa que me disseram é que os ataques de pânico são comuns entre pessoas na casa dos 20. Pergunto-me o que será? De onde vem esta ansiedade? Do medo de ser adultos? Do nosso medo de falhar? Da nossa frustração por não fazer o que gostamos? Do medo de estarmos sozinhos? Da nossa teima em querermos provar aos outros alguma coisa? Devem ser todas estas perguntas e anseios, porque são mesmo isso, anseios sem cabimento nenhum que formam um novelo lá na nossa cabecinha e boom, lá há um dia que faz curto-circuito.
O que há a fazer depois é não deixar o pânico tomar conta de nós próprios. Há que trabalhar a mente. Deixar andar também é importante. Encostarmo-nos e deixar as coisas acontecerem de vez em quando, sem nenhum sentimento de culpa aliado a isso, é óptimo para combater o stress. Porque sabemos que estamos a fazê-lo por bem. Também é importante trabalhar o corpo. O exercício físico é sem dúvida, um dos melhores remédios para tudo.
E há que não ter medo do medo. Há que sair de casa, ir aqui e ir ali. Fazer a nossa vidinha normal, porque a vida, aos poucos, lá volta ao normal. Agora já lá vão uns meses que não tenho nenhum ataque de pânico e não me sinto tão ansiosa e preocupada como antes.

Já tinha pensado algumas vezes fazer uma viagem de metro só para experimentar mas parece que estava à espera do dia em que não tivesse outra alternativa. E no sábado a confusão do Gay Pride Parade no centro de Londres lá me fez apanhar o metro. Fui sem pensar muito e sem medo. Não vou mentir e dizer que assim que entrei na carruagem não tive vontade de sair a correr dali para fora antes que as portas fechassem, porque tive. Mas disse à minha cabeça "isto é ridículo, vê lá se cresces e ganhas um par", e fiquei, e poucos segundos depois de arrancar, o meu coração voltou ao normal, o meu corpo relaxou e pensei: missão cumprida! Sentei-me a comer o meu pacote de frutos secos e a olhar para os posters publicitários. Em quatro meses, alguns ainda são os mesmos!

1 comentário:

Joana disse...

Bom post. Nunca tive nenhum ataque de ansiedade mas gostei de me informar mais sobre o tema. Espero que consigas dar a volta a isso. A casa dos 20 é um "lugar estranho" em que temos muita pressão sobre nós mas, como dizes, também é preciso deixar andar. Beijinhos