quarta-feira, 28 de maio de 2014

Uma questão de afinidade(s)

Uma questão de convivência, numa questão de momento. Ou momentos da vida. Quando conhecemos pessoas, não criamos logo amizades. Desde da indiferença até à amizade, há o caminho da afinidade, que pode ser longo ou não, e que pode prevalecer ou acabar de um momento para o outro. A amizade é a amizade, é como amor, é um sentimento. Está ali, existe, pronto. Não nos livramos dela. Na harmonia ou na discórdia, na ausência ou na presença.
Já as afinidades tomam muitas formas. Há diferentes afinidades. Há aquelas que prevalecem, aquelas que se esquecem, aquelas que desaparecem, aquelas que nos enaltecem, aquelas que nos entristecem, aquelas que nos salvam o dia, ou aquelas que nos arruínam a noite. Cada pessoa para cada ocasião. Parece tão frio de se dizer mas é verdade. Todos nós temos grupos com gostamos de fazer coisas diferentes, com quem queremos estar às vezes mas não queremos estar noutras, e elas vêm-nos da mesma forma, e quem diz o contrário está a mentir. Eu já fui daquelas pessoas que achava que podia juntar o "gado" todo, que podia estar com toda a gente ao mesmo tempo, que todas aquelas pessoas diferentes iam achar as mesmas coisas divertidas. Mas não, não é assim. E depois, há aquelas pessoas com quem a afinidade não passa disso, de uma afinidadezinha que não tem muito por onde se desenvolver. Porque ou não temos objectivos em comum, ou não embarcamos nas mesmas loucuras, ou encaramos a verdade, que estamos com aquelas pessoas só e apenas porque são boa companhia, e não conseguimos admitir para nós próprios o quanto são aborrecidas. E o quanto afectam a nossa auto-estima, porque achamos que devemos ser como elas. Porque achamos que são um bom exemplo. E é egoísmo nosso? Ou o que é um bom exemplo? Num mundo onde tanta gente sai à rua com uma máscara, onde tanta gente é um livro fechado, sempre a manter a pose, sempre com a mesma atitude, sempre a querer alcançar a perfeição. É verdade o que dizem, que quando mostramos as nossas fraquezas, criamos mais empatia, tornamo-nos mais humanos. Será por isso que eu gosto de pessoas de palavrão fácil?  E de pessoas que queiram ir sem reservar primeiro. De pessoas que contem coisas inusitadas da vida delas sem ninguém ter perguntado. De pessoas que fazem xixi na rua. De pessoas que repetem o prato.
E deixando de falar no plural, porque isto não é nenhuma análise sociológica, e claramente eu estou só a falar de mim: Foi aí que eu descobri, ou estou a descobrir, que não posso pintar-me apenas de uma côr. Não posso jogar sempre na mesma posição. Não posso ter sempre as mesmas conversas. Não posso falar sempre de livros, ou filmes, ou do futuro, ou das frustrações do presente, ou de estúpidas fantasias românticas. Ou não posso só e principalmente, ouvir falar. Então aí, ganhei confiança, para dizer que não, para não ter medo de perder alguma coisa porque sabia que não estava a ganhar nada. Ganhei confiança para fazer as coisas à minha maneira. Para ser eu mesma, por vezes séria, por vezes tresloucada. Para estar às vezes acompanhada, e às vezes sozinha. Para dizer que não gosto, ou para dizer que adoro. Para não planear nada. E para respirar.
Quanto à afinidade? Sei lá, acho que não existe. Não quer dizer que não nos encontremos de vez em quando. For old times' sake.
E amanhã, sou capaz de ir, ou é capaz de não me apetecer.

Sem comentários: