sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Íssimo, íssimo, íssimo.


Porque hoje não estou de palavras, ou porque as minhas palavras são vazias e em vão para ilustrar o meu espírito, ou talvez porque as palavras as minhas palavras são cheias, corpulentas, ruidosas, e falaciosamente preencheriam de côr o que não existe, prefiro usar as palavras do poeta. Porque este sempre foi um dos meus poemas favoritos. Porque Álvaro de Campos é uma das minhas "coisas" favoritas. Tenham um bom dia e bom fim-de-semana.

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Automat, Edward Hopper

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