terça-feira, 16 de abril de 2013

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Era o ponto do declínio.
O corpo a pedir para se desintegrar. A mente que ali estava, ardia, pesava. A alma flutuou naquele espaço de tempo. Quanto tempo passou?  Nem um segundo. Forçou-se a si mesmo contra o chão frio enquanto sentia, e sentia ainda mais. Olhos fechados. O lábios formavam linhas desiguais. As mãos descansavam. E nada podia mais fazer senão sentir. Desejou não ter sensações mas nunca sentira tanto como naquele momento. A contradição visita-nos sempre desta forma.
Respirava calmamente enquanto a frustração lhe ia subindo à garganta. Levantou a cabeça e olhou o caderno pousado na mesa de cedro. Quantas vezes abrira aquele caderno, quantas vezes? Quantas vezes lera aquela frase? A angústia acumulou-se ainda mais enquanto voltou a fechar os olhos. A tentação de se levantar e abrir de novo aquele caderno batia na sua cabeça, ondulava-se-lhe no sangue e palpitava-lhe nos pés.
Pensou nas palavras que lhe tinham dito nas últimas horas, tentou desenhar os olhares na escuridão, delineou as faces. Não se atreveu a pensar nas horas que se seguiriam. O seu mundo encerrado numa bolha que dependia daquelas páginas para rebentar. Abriu os olhos e fitou de novo a mancha cor casca de ovo, que estava no tecto. Por um momento a sua mente esvaziou-se, enquanto traçava as formas e sobras daquele ponto. Ponto. Tremeu. Conseguia ver a forma de um hexágono, os ângulos quase perfeitos, até naquele acaso. Os olhos giraram em círculo enquanto ordenou cuidadosamente todos os pontos em que aquele absurdo geométrico terminava. Nem quando a cor desvanecia perdia a sua forma. Abriu a boca e soltou um ruído enquanto a memória afiada lhe despertou o cérebro. O pensamento tornou a processar em ritmo maciço. Pensou em quantas frases escrevera sem colocar um ponto final e a sua mente voltou de novo àquele caderno. Porque não? Porque não teria mudado tudo no entretanto? Apenas bastava espreitar de novo.  Queria fazê-lo, mesmo sabendo que se tudo fora igual, a sensação que não podia chamar de dor voltaria ainda mais forte. Levantou o tronco lentamente até ficar sentado de pernas esticadas, levou as mãos à face e afastou prontamente. A sua pele escaldava. Estava já num estado febril. Tomou mais uma decisão. Afinal aquilo teria que acabar ou não. Teria que terminar ou continuar e era assim que as próximas horas se lhe apresentavam quando ganhou coragem de as projectar no horizonte. Chegou os joelhos ao peito e voltou a fechar os olhos. Mais uma vez, não conseguiria dizer quanto tempo passou antes de se levantar e dirigir à pequena mesa. Pegou no caderno e antes de o abrir respirou fundo. Pensou em todas aquelas páginas. Não existiriam se não as folheasse. Mas existiam, assim como toda aquela história existiu. Como poderia um dia explicar todas as linhas que escrevera. Ainda estavam frescas na sua memória mas não seria capaz de as expôr de novo naquelas páginas. Elas teriam de lá estar. E teriam um fim, com as suas vírgulas e os seus pontos finais. Respirou de novo, fechou os olhos e abriu o caderno.
Quando tomou consciência do seu acto soube que não poderia voltar atrás. Abriu os olhos e viu... duas páginas brancas. Espreitou a próxima página, branco. Folheou lentamente, nenhuma tinta alguma vez existira ali. Se palavras ali estavam, deveriam ter sido trancadas num outro universo de onde não voltariam mais. Folheou mais rápido, o vazio ia-se apresentando em curta-metragem. Parou. Reconheceu aquela que seria a página cinquenta e quatro. Em branco. Recomeçou e as páginas correram sem abrandar a nenhum instante, até chegar à última página. E ali estava. De novo. Aquela maldita frase. A única que nunca escrevera. E nada mais aqueles minutos lhe haviam acrescentado.


"Um fim sem recomeço. "

Jolly, 2013

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