quarta-feira, 10 de abril de 2019

Nós que estamos destinados à sensibilidade

Nós que temos a maldição de sermos sensíveis. Que sentimos tudo ao nosso redor como se fosse uma sinfonia de sons e imagens. Nós que sucumbimos à nostalgia. À saudade.
Nós que observamos. Que ficamos em êxtase com as coisas simples. Nós que amamos. Nós que choramos ao ouvir uma música, por tudo o que ela nos faz lembrar, pelo que já não volta, porque quem já não volta e pelo que ainda há-de vir.
Nós que ficamos com pele de galinha quando a arte, em todas as suas maravilhosas formas, se desenrola à nossa frente.
Nós que escutamos. Que gostamos das histórias que contam os mais velhos. Nós que ficamos a ver as pessoas passar na rua, sem interesse pelas suas vidas, mas pela beleza dos seus movimentos. Nós que paramos para ver um cachorro brincar com uma criança.
Nós que deambulamos. Nós que lemos. Nós que flutuamos na melancolia. Nós que nos lembramos dos pequenos detalhes das histórias. Nós que nos lembramos dos sorrisos. Nós que temos vozes e palavras favoritas.
Nós que gostamos de sentir a chuva e o calor do sol na pele. Nós que dançamos como se ninguém estivesse a ver. Nós que vivemos como se ninguém estivesse a ver. Nós que sentimos o tempo. Nós que gostamos de falar sobre coisas inatingíveis. Nós que rimos sem timidez.
Nós que sublinhamos os livros. Nós que gostamos de apalpar a textura das coisas. Nós que saboreamos. Nós que pintamos a cores. Nós que somos distraídos. Nós que vemos tudo por um prisma maior.
Nós que registamos os momentos em cadernos e fotografias. Nós que sonhamos.
Nós que reconhecemos a mentira antes da mentira. Nós que reconhecemos a verdade debaixo da superficialidade.
Nós que paramos para ver. Nós que continuamos. Nós que saímos. Nós que voltamos. Nós que duvidamos. Nós que questionamos. Nós que procuramos a leveza.
Nós que estamos. Nós que ficamos. Nós que calamos e deixamos viver.
Nós que criamos pontes. Nós que acreditamos. Nós que cantamos. Nós que escrevemos. Nós que agradecemos.
Nós que sentimos o silêncio. A alegria. A tristeza. A normalidade.
Nós que somos felizes porque sentimos.
Nada é vulgar quando é sentido.
Nós, os sensíveis. Nós, os que sentimos. Nós, os que vivemos.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Coisas de que se começa a gostar quando se é adulto

Uns mais cedo outros mais tarde. Algumas coisas antes, outras depois, e quiçá, outras nunca. Há coisas que começamos a gostar conforme vamos amadurecendo, ou envelhecendo, ou neste caso, "adultecendo". Quase todas têm a ver com comida. São aquelas coisas simples que dão um prazer desgraçado aos novos que já são velhos ou velhos que ainda são novos, a.k.a adultos, a.k.a trintões, quase trintões e quarentões, e já agora cinquentões. Mas especialmente a mim, na minha lenta transformação em adulta, que no que toca a muitas destas coisas até foi bastante rápido.
Começo pelo prazer de beber um bom café. Não é que a garotada não beba café, mas bebe pela pica, p'ra acordar e qualquer coisa serve. Para um adulto beber café é todo um ritual que começa pela boa qualidade do mesmo. Segue a bela da vinhaça, que tal como o café já não se bebe com segundas intenções, e principalmente aqui, já não se aceita qualquer zurrapa. Menos quantidade, mais qualidade. Beber um copo de vinho no final de um dia de trabalho - priceless. E claro, last but not least, a comida. Tiramos prazer de comer desde que nascemos mas os gostos vão mudando. Ainda bem né? Senão ainda estávamos todos a beber leite materno. Um adulto gosta de comida trabalhada, não diria requintada mas comida bem confeccionada, produtos de qualidade, coisas frescas... As escolhas de restaurante são bem mais selectivas assim como é enorme a vontade de experimentar tantos restaurantes quanto possível e ter uma elaborada opinião sobre todos eles. E cozinhar então, quando há tempo, passa a ser uma terapia.
Quando somos adultos conhecemos o verdadeiro prazer que é ficar em casa, a ver um bom filme, a ler, descansar, descomprimir ou seja lá o que for. Uma sexta à noite ou sábado à noite em casa consegue ser dos melhores planos que se fazem. Outra coisa que muda consideravelmente, quando as condições assim o permitem, é o preferir gastar um pouco mais e ter algo de qualidade, que dura mais ou sabe melhor. Já bastou a universidade para conhecer todos os produtos da marca "e" ou comprar maquilhagem nas lojas do chinês.  Gastar dinheiro em coisas como massagens, terapias orientais, e suplementos/mezinhas saudáveis, já não parece tão ridículo ou descabido de todo.
E para terminar, começamos também a ter noção do quão depressa o tempo voa e a expressão "tempo de qualidade" ou "tempo bem passado" entra no nosso vocabulário e o conceito está sempre presente na nossa cabeça. Por falar em tempo de qualidade, as pessoas com quem estamos ou os planos em que alinhamos começam a ser mais seleccionados também. Não alinhamos em tudo, basicamente só no que gostamos, e também já não fingimos ter paciência para certas pessoas e certas conversas. Thank you, next.