quinta-feira, 6 de junho de 2019

Sim eu sei que tudo são recordações

Um dos meus planos há muito por concretizar era revisitar a cidade onde estudei. Depois de meses e meses a tentar conciliar uma data em que pudesse lá reencontrar-me com alguns amigos, e depois de tantas tentativas falhadas, decidi não esperar mais por tal momento utópico em que as vidas de todos se conciliam para partilhar o mesmo tempo e espaço. Isto para dizer que reservei um quarto num hostel, comprei os bilhetes do autocarro e fui sozinha.
Há algo de triste em voltar a um lugar onde fomos felizes. Há alguma frase cliché por ai que até nos aconselha a não o fazermos. Mas voltar e visitar são coisas diferentes. E foi isso que eu fiz. Durante dois dias fui turista das minhas próprias memórias.
O tempo de estudante universitária foi muito importante para mim. E a felicidade desse tempo não vem das bebedeiras e vida boémia associada a ser estudante. Essa vida arrasta-se até bem depois de termos o diploma na mão, e não é nada de especial. Mas vem sim do facto de ter encontrado um grupo de pessoas com quem pude deixar a minha imaginação e o meu génio voar.
Eu nunca fui muito feliz na escola secundária. Aliás, não conheço ninguém que diga "eh pá, no secundário é que era, bons tempos", basicamente porque não são bons tempos para quase ninguém, e quem realmente sente saudades do secundário são os bullies que na altura consideravam estar no topo da cadeia alimentar, e presentemente ressentem o facto da vida não ser como na escola secundária.
O que eu quero dizer é, no secundário, tudo é muito generalizado. A mesma turma tem muitas pessoas diferentes com vocações e interesses completamente distintos, para além do facto que somos adolescentes e tal, e ainda ninguém sabe muito bem o que fazer com a vida, ou sabe exactamente, o que aos 16 anos é um bocadinho grave.
Eu sou daquela geração em que a grande maioria de nós optou por áreas e cursos que trariam saídas profissionais, ou seja, dariam emprego. E dado a situação económica da altura, mais um mercado de trabalho que estava a desaparecer aos poucos, não há nada para censurar nisto. A minha geração foi prática, foi céptica, e deu demasiados ouvidos a outréns mais velhos. Conclusão, andei na escola com muitos enfermeiros e técnicos de saúde, e dos quais, ainda assim, poucos acabaram a trabalhar na área. Sinto que faço parte de uma geração que foi chata nas suas escolhas. E vejo isso quando vejo os miúdos de agora, E os miúdos de agora têm sorte. Porquê? Porque agora é ponto assente que nada dá emprego, ou quase nada, E isso dá-lhes uma liberdade de escolha tremenda, porque não sentem pressão de seguir determinada área como nós sentimos na altura. Nem sequer se sentem pressionados a tirar um curso superior, pois sabem que não é por aí que vem o sucesso profissional. Os miúdos de agora são criativos, escolhem as áreas que os apaixonam verdadeiramente, ou mostram o dedo do meio ao canudo e vão criar apps, concretizar projectos e montar empresas, e cada vez mais dão valor ao self-employment.
Mas voltando lá atrás à minha geração. Eu, para o bem ou para o mal, não cedi à pressão e escolhi um curso pelo qual sentia verdadeira paixão, e que não tinha quaisquer perspectivas de futuro. Poucas, poucas perspectivas. Mas fui e não me arrependo. Voltei às Letras, depois de ter cedido o meu secundário à área das ciências (a única coisa que me arrependo na vida, eu sou e sempre fui de Humanidades), e fui parar a uma cidade onde não conhecia ninguém e a uma instituição na qual me orgulho verdadeiramente de ter estudado. E o melhor disto tudo foi ter encontrado pessoas, que apesar de nascidas e criadas em outros pontos do país tinham muito mais a ver comigo que os meus amigos do secundário, que cresceram no bairro ao lado. Eram pessoas com a mesma vocação. Pela primeira vez estava a conviver com pessoas que se entusiasmavam com as mesma coisas com que eu me entusiasmava. E criámos muita coisa juntos, não só em currículo académico, mas fora dele também. E aquela cidade é tão importante para mim porque essas pessoas fizeram o que a cidade é para mim. Os lugares são as pessoas.
E venho aqui debitar estas palavras porque, passados dez anos, fui visitar o lugar em que, pela primeira vez na minha vida, me senti encaixada. E para além de relembrar todos os momentos passados com os meus extraordinários amigos, relembrei o quão importante é sentirmo-nos encaixados na nossa vida profissional (onde passamos a maior parte das nossas horas), e nunca devemos deixar de procurar o lugar onde tudo se encaixa. Afinal de contas, sem paixão, nem vale a pena. A miudagem sabe.
E as amizades da universidade, mesmo que as vidas sigam para pontos opostos e o convívio desvaneça, nunca desaparecem. É um laço muito forte. O laço que se cria com alguém com quem desbravamos, criamos, pensamos, imaginamos, discutimos, experimentamos, crescemos, e olhamos para o futuro. Sim, o futuro. Recordar é bom mas como diria o meu melhor amigo da universidade "tenho saudades do futuro, coisas novas".
Vamos criar novas memórias?



quarta-feira, 10 de abril de 2019

Nós que estamos destinados à sensibilidade

Nós que temos a maldição de sermos sensíveis. Que sentimos tudo ao nosso redor como se fosse uma sinfonia de sons e imagens. Nós que sucumbimos à nostalgia. À saudade.
Nós que observamos. Que ficamos em êxtase com as coisas simples. Nós que amamos. Nós que choramos ao ouvir uma música, por tudo o que ela nos faz lembrar, pelo que já não volta, porque quem já não volta e pelo que ainda há-de vir.
Nós que ficamos com pele de galinha quando a arte, em todas as suas maravilhosas formas, se desenrola à nossa frente.
Nós que escutamos. Que gostamos das histórias que contam os mais velhos. Nós que ficamos a ver as pessoas passar na rua, sem interesse pelas suas vidas, mas pela beleza dos seus movimentos. Nós que paramos para ver um cachorro brincar com uma criança.
Nós que deambulamos. Nós que lemos. Nós que flutuamos na melancolia. Nós que nos lembramos dos pequenos detalhes das histórias. Nós que nos lembramos dos sorrisos. Nós que temos vozes e palavras favoritas.
Nós que gostamos de sentir a chuva e o calor do sol na pele. Nós que dançamos como se ninguém estivesse a ver. Nós que vivemos como se ninguém estivesse a ver. Nós que sentimos o tempo. Nós que gostamos de falar sobre coisas inatingíveis. Nós que rimos sem timidez.
Nós que sublinhamos os livros. Nós que gostamos de apalpar a textura das coisas. Nós que saboreamos. Nós que pintamos a cores. Nós que somos distraídos. Nós que vemos tudo por um prisma maior.
Nós que registamos os momentos em cadernos e fotografias. Nós que sonhamos.
Nós que reconhecemos a mentira antes da mentira. Nós que reconhecemos a verdade debaixo da superficialidade.
Nós que paramos para ver. Nós que continuamos. Nós que saímos. Nós que voltamos. Nós que duvidamos. Nós que questionamos. Nós que procuramos a leveza.
Nós que estamos. Nós que ficamos. Nós que calamos e deixamos viver.
Nós que criamos pontes. Nós que acreditamos. Nós que cantamos. Nós que escrevemos. Nós que agradecemos.
Nós que sentimos o silêncio. A alegria. A tristeza. A normalidade.
Nós que somos felizes porque sentimos.
Nada é vulgar quando é sentido.
Nós, os sensíveis. Nós, os que sentimos. Nós, os que vivemos.